O Mito de que Gestão ganha Alguma Coisa

O objetivo de existência de um clube de futebol é ganhar campeonatos. É para isso que ele existe. Ninguém monta um clube para perder. Talvez o clube saiba que seja difícil ser campeão, mas nem por isso ele deixa de ter esse objetivo. Se não for para ser campeão de alguma coisa um dia, um clube de futebol não tem razão de existir.

A lógica funciona desse jeito: a gestão de uma organização busca alcançar os objetivos pelos quais essa organização existe. Organizações que existem para buscar o lucro tem a gestão focada em maximizar as receitas e diminuir as despesas para gerar o lucro. Organizações que buscam melhorar o planeta tem a gestão focada em maximizar o impacto positivo na sociedade e reduzir o negativo para melhorar o planeta. E organizações que buscam ganhar campeonatos de futebol possuem a gestão focada em maximizar o número de vitórias e reduzir o número de derrotas para ganhar um campeonato de futebol.

É natural, assim, a gente avaliar a gestão de um clube baseado na performance do time em campo. Quando um clube é campeão, avaliamos a gestão do clube como boa. Quando um clube perde, avaliamos a gestão do clube como ruim. Não avaliamos a gestão antes de saber os resultados em campo. Enaltecemos os modelos de gestão dos campeões e condenamos os modelos de gestão dos rebaixados. Nada mais lógico. Nada mais comum.

O que não é comum é que, nesse Campeonato Brasileiro, tanta gente tenha condenado o modelo de gestão do campeão, Palmeiras, e ao mesmo tempo enaltecido o modelo do terceiro colocado, o Flamengo. A ideia por trás disso, em suma, é que o Palmeiras usa um modelo de gestão antiquado, pois depende de um indivíduo que financia as suas atividades, e o Flamengo usa um modelo racional, pois depende só da organização interna e das próprias receitas.

No fundo, porém, esses modelos de gestão não são tão opostos assim. Ambos são fundamentados na mesma ideia de montar um time a partir do dinheiro disponível para contratação de atletas para o time principal. A discussão é apenas de onde vem o dinheiro: se de uma fonte apenas ou de um universo de pequenos financiadores. E essa diferença, em si, pouco importa. Se um time possui um ou alguns indivíduos ou empresas dispostos a financiar as suas atividades, qual o problema nisso? Praticamente todos os times vencedores na história tiveram um grande financiador por trás.

Na sua maior parte, a diferença de gestão entre clubes de futebol não é tão relacionada a como um clube ganha o dinheiro, mas sim a como um clube gasta esse dinheiro. Afinal de contas, o que importa não é o quanto você ganha, mas o que você faz consegue alcançar com o dinheiro disponível. Se um clube implementa métodos de gestão que dobram o seu faturamento, mas ao mesmo tempo passa a pagar o dobro de salário para os mesmos jogadores, e portanto obter os mesmos resultados de antes, não dá pra dizer que o clube está se desenvolvendo.

Então, para comparar a gestão entre os clubes além da performance no campeonato, é preciso analisar a composição do elenco de cada time. A atividade do jogador é determinada por, basicamente, duas grandes variáveis. A performance que ele entrega hoje e a performance que ele vai entregar no futuro. Paga-se bem por ótimos jogadores novos porque eles entregam hoje e provavelmente vão entregar muito mais para frente. Paga-se melhor ainda por jogadores na faixa dos 26-29 anos porque esses entregam tudo o que tem para entregar. Passando dessa faixa etária, a performance física e o valor de mercado tendem a diminuir (com exceção a goleiros, que se extende por mais uns anos), o que significa que o clube passa a pagar mais por um ativo que se deprecia. Jogadores mais novos são investimento e jogadores velhos são um custo. Contratar um jogador mais novo é como comprar um imóvel em uma área em desenvolvimento econômico. Comprar um jogador mais velho é como comprar um carro.

Assim, a comparação entre os modelos de gestão de Palmeiras e Flamengo deve ser feita menos na fonte do dinheiro e mais na composição do elenco. Pouco importa de onde vem a grana, desde que ela esteja sendo gasta de um jeito certo. Se um clube consegue dinheiro de um benfeitor que não necessariamente estará presente no ano seguinte, mas investe esse dinheiro em jogadores novos que entregam um alto nível de performance, não dá pra dizer que esse clube é pior gerido do que um clube que consegue dinheiro sem um financiador individual, mas que gasta o dinheiro em jogadores mais velhos que já entraram em um declínio físico e dificilmente conseguirão entregar o mesmo nível de performance ao longo dos próximos anos. Muito pelo contrário.

Para poder ter uma melhor ideia disso, cruzei as idades de todos os jogadores de Palmeiras e Flamengo que jogaram mais de 10 partidas pelo Brasileiro com as notas do WhoScored, uma das principais ferramentas de avaliação de performance de atletas disponíveis. Se um clube tem as melhores performances concentradas nos jogadores mais jovens, é seguro dizer que esse clube está num caminho muito melhor do que se ele tivesse a melhores performances concentradas nos jogadores mais velhos. Com jogadores mais jovens, ele pode garantir a entrega de performance nos próximos anos, obter mais valor dos salários e imaginar que pode conseguir gerar uma boa receita a partir da futura transferência desses atletas. Com jogadores mais velhos, a garantia é que o clube pagará o mesmo salário para um jogador que ano após ano produz menos para a equipe e que, ao final do contrato, o jogador provavelmente sairá sem gerar qualquer ganho financeiro. O resultado ficou assim:

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Como dá pra ver, a diferença entre o formato dos dois elencos é clara, como as próprias linhas de tendência evidenciam. Enquanto o Palmeiras teve a performance que o levou ao título baseada em boa parte em jogadores mais novos, com 7 jogadores abaixo de 26 anos entre os que ganharam nota 6,8 ou superior, o Flamengo dependeu mais de atletas com mais idade, com apenas 4 jogadores nesse quadrante. Com isso, na próxima temporada, o Flamengo precisará de mais investimento para poder manter o nível de performance dos seus oito jogadores acima de 28 anos que foram fundamentais para a campanha desse ano, em especial Diego, que terá 32 anos, e Guerrero, que terá 33. Já o Palmeiras colhe os frutos da aposta de atletas mais novos, como o caso de Gabriel Jesus, e, conseguindo manter essa estrutura, terá a garantia de mais alguns anos de alta performance com os atletas que tem em mãos.

Outro clube em situação privilegiada similar ao Palmeiras é o Santos, vice-campeão, com 8 jogadores com nota acima de 6,8 e abaixo de 26 anos:

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Curiosamente, o Internacional, rebaixado e com o modelo de gestão execrado, apesar de ser o mesmo modelo de quando foi campeão do mundo em 2006 e que na época foi alvo de tantos elogios pelos mesmos que hoje tanto o criticam, possui situação quase semelhante ao Flamengo, com a exceção de que os seus atletas mais experientes não conseguiram entregar o mesmo padrão de performance de Diego e Guerrero:

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Ainda assim, por possuir a sua alta performance concentrada em atletas mais novos, tudo indica que o Internacional levará a Série B do ano que vem nas costas e, caso acerte no equilíbrio da performance dos jogadores com mais idade, conseguirá garantir uma excelente performance em 2018, voltando assim a ter seu modelo de gestão exaltado, mesmo que sendo o mesmo modelo que está sendo execrado agora.

É evidente que gestão no futebol não ganha jogo. O que ganha jogo são bons jogadores, e escolher bons jogadores independe do modelo administrativo que um clube escolhe. Clubes acham dinheiro do jeito que dá, e não dá pra julgar um clube pelas escolhas que ele faz. Pelo menos, não sem priorizar o objetivo final de um clube que é a vitória. O máximo que dá pra relacionar gestão à performance é na maneira que o clube escolhe a melhor forma de obter os melhores jogadores que possibilitem maior sucesso hoje e também nos campeonatos seguintes. E, nessa filosofia, os gráficos acima deixam bem claro quem está em qual caminho. Tire suas próprias conclusões.

 

Desmitificando Roth

Depois de 16 jogos e faltando 03 jogos pra acabar o campeonato, Celso Roth foi demitido do Internacional. Ele, que foi contratado para dar resultados imediatos ao clube que na época já se encontrava rondando o rebaixamento, foi substituído porque o clube precisava de alguém que desse resultados ainda mais imediatos.

Nesse processo todo, Celso Roth ficou com uma imagem de que quando contratado oferece apenas uma coisa: resultados de curto prazo. “Celso Roth” e “curto prazo” no Google dá mais de 10.000 resultados. Em 2014, Roth comandou o Coritiba em 17 partidas.  Em 2015, comandou o Vasco em 12. Com a percepção que existe sobre o seu trabalho, se ele não consegue oferecer alguma coisa rápida pra um clube, ele automaticamente deixa de ter valor como técnico. Mas será que Roth merece esse estigma? Seus resultados são mesmos de curto prazo? Resolvi pesquisar.

A ideia por trás de um técnico de curto prazo, imagino, é que ele chega em um clube, ganha umas partidas no começo e depois de um tempo já não consegue mais entregar resultados e é, naturalmente, mandado embora. Colocando em um gráfico, o desempenho pode ser ilustrado assim:

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Analisei a carreira do Celso Roth nos últimos 10 anos, período em que ele treinou o Vasco (03 vezes), Grêmio (02 vezes), Internacional (02 vezes), Cruzeiro, Atlético Mineiro e Coritiba. Era de se imaginar que, para conseguir ser estigmatizado com essa imagem, Roth teria um grande sucesso no começo do seu trabalho nos clubes e que o aproveitamento fosse se definhando conforme o tempo. Mas o gráfico ficou assim:

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Apesar da imagem de resultado de curto prazo, não há nenhuma correlação entre tempo de trabalho e percentual de aproveitamento na sua carreira ao longo dos últimos 10 anos. Às vezes ele começou muito bem e às vezes ele começou muito mal. E em todas as vezes, conforme o tempo passou, o rendimento do seu time se estabilizou. Algumas vezes um rendimento muito bom, outras vezes nem tanto. Na média, o trabalho de Celso Roth é impressionantemente estável, ficando sempre por volta de 55% de aproveitamento:

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Os números deixam claro: Celso Roth não é um técnico nem de curto e nem de longo prazo. É um técnico que tende a entregar um resultado bastante estável, do começo ao fim do seu trabalho. Com 55% de média, ele tende a deixar o clube entre a sétima e a oitava posição do Brasileirão.  Com um pouco de sorte, dá pra garantir a Libertadores e brigar pelo título. Com um pouco de azar, acaba brigando pra escapar do rebaixamento. Mas, independente do cenário, vai ser assim do começo ao fim.

O Legado Político da Copa

No seu discurso na FIFA na cerimônia que definiu o Brasil como sede da Copa de 2014, Lula disse:

“No fundo, no fundo, nós estamos aqui assumindo uma responsabilidade enquanto nação, enquanto Estado brasileiro para provar ao mundo que nós temos uma economia crescente, estável, que nós somos um dos países que está com a sua estabilidade conquistada”

Para Lula, esse era o legado da Copa. Assim como Vargas em 50, a ideia era mostrar ao mundo quem era o Brasil. No auge da sua popularidade, Lula buscava espalhar seu carisma pelo planeta. Consolidar o Brasil como potência econômica internacional era peça fundamental para esse projeto. Era para isso que a Copa servia. Para divulgar essa nova potência mundial. Nada de legado econômico, muito menos social. O foco era a construção e consolidação da imagem do país como potência para a audiência internacional, também conhecido como ‘soft power’.

Nada mais justo. Geopoliticamente, esse sempre foi, é e vai continuar sendo o principal motivo para sediar megaeventos esportivos. Talvez por seu caráter mais abrangente, a Olimpíada era até pouco tempo o grande objeto de desejo de governos mais eloquentes. Foi assim, por exemplo, com a Alemanha de Hitler, com os Estados Unidos e com a USSR na guerra fria, e com a China mais recentemente. Como a Copa do Mundo da FIFA pós-Havelange se estabeleceu como um megaevento com influência global pelo menos igual às Olimpíadas, naturalmente ela também passou a fazer parte desse jogo de poder. Daí, portanto, a disputa entre Rússia, China e Estados Unidos pela influência na organização da própria FIFA e o interesse desses e de outros players menores, como Qatar e Brasil, em sediar o evento.

O pensamento lógico sugere que onde há interesse em retorno geopolítico dificilmente há interesse em retorno financeiro. Assim, qualquer perspectiva de que um megaevento esportivo tenha impacto econômico pode ser descartada. Lula provavelmente sabia disso. Imagino que os 13 governadores que integravam a comitiva brasileira na Suíça também sabiam.

Para um estado do país, porém, o soft power traz pouco benefícios diretos. Para um governador, muito menos. Junte isso à ausência de benefício econômico, a pergunta que fica é: por que tantos estados/cidades tentaram ser sede da Copa de 2014 no Brasil? Imagino que o motivo seja o mesmo que leva governantes a tomarem boa parte das suas decisões assim que assumem um cargo: votos.

Depois da Copa e das Olimpíadas, o projeto expansionista Lulista se esfacelou com a crise econômica interna e a consequente crise política. Retorno financeiro todo mundo meio que já sabia que não ia dar mesmo, e não deu. Mas será que a Copa rendeu votos para os governadores e prefeitos que sediaram o evento? Terminado o segundo turno das eleições de prefeito e, assim, finalizando o ciclo de governantes que ocupavam o cargo em 2014, já é possível avaliar.

De um modo geral, a última eleição foi generosa com os prefeitos, partidos e coligações que ocupavam o poder. Das 26 capitais do país, 15 mantiveram o mandato. O que chama atenção, porém, é que nas cidades que foram sede da Copa, aconteceu o inverso. Nas 11 sedes (Brasília não tem eleição para prefeito, vale lembrar), apenas 05 prefeitos/partidos/coligações se reelegeram. Mais da metade deles perdeu o poder. Nas cidades que não foram sede, dois terços conseguiram se reeleger.

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É difícil tirar qualquer conclusão mais profunda de uma análise com tantas variáveis e que leva em conta só uma eleição. Se analisarmos a taxa de continuidade das eleições passadas para prefeitos e governadores, tanto antes quanto depois da Copa, dá para perceber que, de um modo geral, o poder executivo das cidades/estados sedes sempre teve uma maior dificuldade para continuar no poder.

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A única exceção foi na eleição para prefeito de 2012, quando aparentemente todas as cidades do país se revoltaram com seus governantes por igual. Fora isso, a reeleição nas cidades/estados sedes sempre foi uma tarefa mais árdua, e ser sede da Copa não alterou esse cenário.

Assim, em uma análise superficial, dá para dizer que os frutos da Copa para os interesses dos tomadores de decisão foram bastante limitados. O Brasil continua sendo um país periférico na geopolítica global. A economia do país, dos estados e das cidades sedes não passou por maiores transformações. Porém, com uma economia cambaleante, os governantes não conseguiram utilizar o evento como plataforma para manutenção do poder.

O legado político da Copa foi, portanto, exatamente igual ao legado econômico: difícil de avaliar, mas no máximo muito pequeno para justificar o custo e a dor de cabeça de sediar o evento.

 

Por um futebol com melhores argumentos

No último sábado, a Folha publicou uma entrevista com Leonardo, ex-técnico do Milan e Internazionale e ex-diretor do PSG. A entrevista foca nos problemas e soluções para o futebol brasileiro. Apesar de ser sempre interessante ter a perspectiva de um profissional experiente internacionalmente, vencedor e relativamente polêmico como ele, a entrevista não traz muita coisa de novo. Na verdade, mais confunde do que contribui. E é assustador que um jornal como a Folha de São Paulo publique esse tipo de conteúdo sem fazer qualquer análise crítica sobre o que está sendo dito. O que provavelmente tenha sido pensado para ajudar, no fundo faz um desserviço ao futebol. Permita-me uma análise rápida sobre o que foi dito:

“Não existe futebol forte sem clube forte e campeonato forte.”

Depende da sua definição do que é futebol forte. Se for a performance da seleção do país, como o resto da entrevista deixa a entender, a da seleção inglesa nesta Eurocopa (ou em qualquer competição que seja) já é evidência clara de que isso não é necessariamente verdade. Portugal e País de Gales jogam hoje para definir quem vai à final da Euro. O Campeonato Português está longe de ser exemplo pra qualquer coisa. O melhor clube do País de Gales, semifinalista da Eurocopa, é o Swansea.

“Então o presidente da CBF precisa ser o cara que mude o futebol brasileiro. A visão hoje é política, não é esportiva nem econômica, o que freia nossa evolução. A política nos impede de ser atuais.”

Futebol é em parte negócio e em maior parte política, em qualquer lugar do mundo. Em Abril, a Federação Alemã, elogiada pelo próprio Leonardo, elegeu um novo presidente, Reinhard Grindel, ex-tesoureiro da federação e também ex-deputado. Esse é o seu vídeo:

 

“Independentemente da posição do presidente da CBF ser delicada, ele poderia ser o piloto de uma nova estrutura do futebol. Já convivi com muitas esferas de poder. Sei como é difícil ceder. Mas hoje nosso futebol está cada vez mais deteriorado.”

Para todos os efeitos, o futebol brasileiro nunca esteve tão organizado. Ainda que esteja longe do ideal, dizer que ele está se deteriorando é implicar que um dia ele foi melhor, o que não é verdade.

“É um problema a estrutura dos clubes também ser política. Seus dirigentes não são escolhidos porque têm formação, porque estudaram, prepararam-se. São políticos também, o que é muito ruim.”

Barcelona, Real Madrid e Bayer de Munique são três dos cinco clubes mais ricos do mundo, e todos tem presidentes eleitos por sócios. E eleição é sempre igual a estrutura política e a presidentes políticos. Ademais, o próprio Milan, o clube que lançou Leonardo ao patamar de hoje, só conseguiu alcançar popularidade global quando serviu de plataforma política para o seu antigo dono, Silvio Berlusconi.

“É possível [criar um torneio relevante que reduza a obrigação de exportar jogadores], porque somos o Brasil. Não quero ficar sentado nos louros do passado. Pode ter um produto vendável, com qualidade. Sabemos produzir, mas não conseguimos mais.”

O Brasil produz muito mais jogadores do que o mercado interno consegue acomodar. Não por incapacidade organizacional, mas simplesmente porque não tem como aumentar o tamanho do elenco dos clubes, que já tendem a ser bastante inchados. Com excesso de oferta e demanda limitada, você busca outros mercados. Se a ideia é ser menos político e mais business, os clubes deveriam vender muito mais jogadores do fazem hoje, independente da qualidade do torneio. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

“(…) é necessário partir de um projeto dos clubes. Só os clubes podem salvar o futebol brasileiro.”

Isso parece discurso de campanha, daqueles que soa legal mas não faz sentido algum. Se tem alguém precisa ser salvo, e ainda não precisa, são os clubes, não o contrário. Em países com economia frágil e pouca demanda por futebol ao vivo, a estrutura precisa ser subsidiada, seja pelo governo ou pela federação.

“No início, tem de haver uma mudança da estrutura jurídica de todos os clubes.”

Alteração na estrutura jurídica não muda o futebol em lugar nenhum do mundo. Clube bom e organizado vai ser bom e organizado sendo empresa ou associação sem fins lucrativos. Clube ruim e bagunçado vai ser ruim e bagunçado sendo empresa ou associação sem fins lucrativos.

“E a criação de uma entidade que regule esse novo campeonato.”

O Campeonato Brasileiro é bom e é organizado pela CBF. Demorou pra chegar lá, mas hoje tem um formato redondo e similar ao que há de melhor no mundo. Faltam evidências para sugerir que uma entidade formada por clubes vá fazer qualquer coisa melhor do que o que existe. Mas existem evidências de sobra pra sugerir que pode piorar bastante.

“A China está investindo na Europa e não no Brasil, porque o Brasil não tem estrutura nem credibilidade. Para investir, precisa mudar a estrutura jurídica [refere-se à criação de clubes empresas ou outros mecanismos que permitam a entrada de capital estrangeiro]. A China é só um exemplo. O importante é ser sempre atual para captar os investidores do momento.”

A essas alturas, a ideia de que um dia investidores em cavalos brancos irão salvar o futebol brasileiro já deveria ter sido esquecida. O Brasil conta com uma boa dose de investidores estrangeiros, inclusive chineses. Todos eles focados naquilo que o Brasil faz de melhor: jogadores. Somos mais matéria-prima do que produto acabado. Deveríamos tirar melhor vantagem disso.

“Isso tudo tem de passar pelos clubes, mas a CBF tem de ser a aglutinadora de um mercado de clubes que hoje só brigam por política. Você acha que um dirigente hoje investe mais na relação política ou nas divisões de base?”

Na base.

“Leva tempo [para o Brasil voltar ao topo], mas o maior problema é conseguir que todos pensem assim. Jogadores, dirigentes, federações, imprensa, torcedores. Estamos todos divididos. Não quero saber do passado. A Justiça pode querer saber disso. Mas daqui para a frente, o objetivo precisa ser fazer outro futebol.”

Não entendi.

“A seleção é sempre consequência do futebol brasileiro, não o contrário.”

Não é verdade. Todo o discurso sobre a qualidade do futebol brasileira é baseado na performance da seleção, como a própria entrevista deixa claro. Se a seleção está ganhando, o futebol está uma maravilha. Se está perdendo, tem que mudar tudo. Não é nem o primeiro e muito menos o segundo. E, vale repetir, o futebol brasileiro está muito mais estruturado hoje do que em 1994 e 2002.

“Hoje, o jogador médio do Brasil é pior do que o médio das grandes potências. E isso passa por formação. Oito de 11 jogadores são bem formados na Europa. Eles fazem a diferença. Temos de aumentar a nossa média com nova metodologia de treinamento.”

Um quarto dos jogadores que disputaram as quartas-de-final da Champions League desse ano nasceram no Brasil. Não sei se precisa dizer mais alguma coisa.

“O 7 a 1 acabou colocando tudo isto em evidência. Nunca discutimos profundamente nossos problemas, porque não tinha acontecido uma catástrofe.”

Depois que o Brasil perdeu pra França em 1998, houveram duas CPIs e uma enxurrada de novas leis. A Inglaterra perdeu pra Islândia. A média de público do campeonato Chileno é de 5 mil pessoas por jogo. De uma vez por todas: resultado em campo não é consequência da capacidade organizacional de um país.

“Mas há outras coisas a pensar sobre a Copa no Brasil. Que voz os clubes tiveram na organização da Copa do Mundo? (…) Como você faz o maior evento, que pode trazer mil benefícios e nenhum clube se senta na mesa. A Alemanha usou a Copa para fazer da Bundesliga o segundo campeonato mais importante da Europa. Fez centros de formação e aumentou a média de audiência em televisão e no estádio. São as maiores da Europa. Tudo a partir de um evento.”

Também faz pouco sentido. África do Sul, Japão, Coréia e França continuam com um futebol com pouca relevância. A MLS nos EUA até hoje opera no vermelho. Além disso, faltam evidências para indicar que a Bundesliga teve papel relevante na organização da Copa de 2006. Na verdade, como a reputação da liga havia sido profundamente manchada em 2005 por um esquema milionário de manipulação de resultados, o Comitê Organizador da Copa possivelmente se manteve a uma boa distância dos clubes.

“O Brasil pode fazer. Mas hoje não tem união de todos os setores. A gente não sai do lugar por causa disso. Se eu fosse presidente da CBF, eu faria tudo a partir dos clubes.”

O presidente da CBF sempre faz tudo a partir dos clubes, seja lá o que isso quer dizer. Clubes elegem os presidentes das federações, que por sua vez elegem o presidente da confederação. Na base, sempre estão os clubes. O ponto é que existem muito mais clubes pequenos do que clubes grandes, a quem Leonardo parece favorecer. O presidente da CBF jamais vai conseguir governar para os poucos clubes grandes que precisam de menos ajuda. A estrutura do futebol vai muito além. Achar que governar para poucos resolverá todos os problemas é uma ilusão. E, como o próprio Leonardo disse em outra entrevista, o futebol não é utopia.

Para melhorar o futebol, é preciso levar as coisas mais a sério. Inclusive as entrevistas.

 

6 Ways Brexit Will Impact the Premier League

After all the confusion, lies, conspiracies and chaos generated by the Brexit, one thing is clear: despite all claims of democracy, power and finance, Brexit is all about immigration.

Therefore, any analysis on the possible effects of Brexit on the English Premier League needs to focus on the impact that the restricted player movement will have on local football. I have thought of six:

1. Clubs will buy a lot of European players this transfer window

The faith of the EU citizens currently living in the UK is still up for debate, but clearly extraditing a few million people back to the continent will hardly be considered an option. New immigration rules will possibly be applied only after the Article 50 is triggered, which may happen in 2017 (if?). Therefore, the time to sign EU players is more urgent than ever.

Unsurprisingly, many clubs have been very active in the early days of the transfer window, which is rather uncommon. The sooner you sign an EU player, the higher the chances you have of being able to count with him for the next 3-5 years, even though the current transfer window will close before the new Prime Minister election. In these uncertain times, the earlier, the safer.

2. Football League Trophy will gain a boost 

Rather than buying young talent and loaning them to smaller EU clubs, there will be more incentive for English Premier League clubs to use players at English lower divisions. With clubs now being able to play their U21 teams on the Football League Trophy, there will be increased interest from supporters, media and overall audience to watch the young players performing at professional level at home.

 3. Clubs will sign older players

This is very logical, but has a major impact on the overall structure of the football business. If future visa regulations of EU players are to be similar to the current non-EU players, only national-squad level players will be able to join the EPL. For players from small nations, this doesn’t really change much. But for players from strong football countries, such as Argentina, Brazil, France, Germany, Italy and Spain, it changes everything, as they will need to make their name in other markets, then be called regularly for their national team, and only then be eligible to play for the EPL. This kind of players will not be cheap or very young. And the older the top-level player, the shorter the high-performance expected time, which means that English clubs will need to pay premium price for shorter contracts, which is always a great way to lose money.

 4. Stronger Union

Freedom-of-movement restrictions on EU players also mean that English clubs will have much less players available to sign, which means increased competition over few individuals. Similarly to what happens on US sports leagues, which has eligibility restrictions based on the draft system, this means that players will have stronger incentives to organise themselves collectively and bargain for more benefits (this usually means higher salaries). The Professional Footballers Association will gain importance and capacity for collective and industrial actions. Players’ strikes threats will possibly become frequent.

5. Save the Managers. Please.

Of the top ten EPL clubs last season, only Stoke City had a UK-born manager. The regulations for issuing working permits for managers are not the toughest, but making sure clubs can continue to sign the best managers around the world should be one of the top priorities for the EPL, as the most successful English manager from last season was responsible for this:

And this:

6. The rise of Dominica

Football clubs are notorious for circumventing rules to sign players. When only amateurs were allowed to play football, club owners would employ top players on highly-paid-low-demanding positions on their own companies. When they were forbidden to sign young players, clubs found employment for the whole family nearby the training grounds. When they couldn’t field unknown players from non-EU countries, they would sign and loan these players to European clubs in countries with soft citizenship programs. And now, with the borders closing on all immigrants, make no mistake: clubs will again find a way to sign the players they want.

I went ahead and found a good alternative, again considering that the regulations for EU players will be levelled with non-EU players, and therefore all players eligible for a working permit will need to have played at least 75% of competitive international matches for its national team.

Dominica, a small Caribbean island with a population around 72,000, is one of easiest nations to get a citizenship in the world. According to the Dominica Citizenship Program, all you have to do is invest USD 100,000 in the country and you get yourself a Dominican passport. The beauty is that contrary to most nations around the globe, you don’t even have to have residence in the country.

So, the path for UK clubs is clear: sign any player in the planet, arrange him to pay USD 100,000 to Dominica and wait for two years. The player will most certainly make the list for all matches of the Dominican national squad, ranked 176th in the world. After playing a few matches against opposition such as the British Virgin Islands, Grenada and St Lucia, the player will then be eligible for a work permit in the UK.

This is a simple, effective and positive relationship for all involved. With enough talented global youth players, Dominica will surely climb the FIFA ranking and become one of the leading teams of CONCACAF. For the players, they will be able to hold a passport of one of the most beautiful tax heavens in the world.

Interesting times ahead.

O Esporte Interativo e o Futuro do Campeonato Brasileiro

Quando o Santos anunciou o acordo de vendas dos seus direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro em televisão fechada para o Esporte Interativo, disse que era uma inovação. O Esporte Interativo, por sua vez, chamou de revolução. Eu prefiro chamar de teste. Um teste crítico para o futuro do Campeonato Brasileiro e para os clubes de futebol do país.

A televisão fechada como revolução para o futebol aconteceu de fato há mais de 20 anos atrás, no início dos anos 90, quando a BSkyB comprou os direitos da Premier League e tirou o campeonato inglês da televisão aberta por completo. Resumindo bem a história, Rupert Murdoch havia lançado a empresa uns anos antes no Reino Unido, oferecendo uma nova plataforma de televisão por satélite. Apesar do investimento gigantesco e das promessas de melhor qualidade e afins, pouca gente assinou o serviço.

Depois de um tempo operando no vermelho e cada vez mais próximo do risco real de quebra, Murdoch apostou todas as suas fichas na compra da exclusividade dos direitos de transmissão da primeira divisão inglesa e criou um novo campeonato, a Premier League. Para assisti-la, o único jeito era pagar para assinar a BSkyB, que também oferecia filmes, canais de desenho e essa coisa toda. A aposta deu certo. Em poucos anos, a empresa ganhou milhões de assinantes que estavam dispostos a pagar caro para assistir futebol e outros canais de qualidade e decolou para se tornar um dos grandes conglomerados de mídia do planeta. Resumindo, bem resumido, foi por aí.

Com o sucesso da Premier League, esse modelo eventualmente começou a ser replicado por outros países europeus: para assistir futebol ou se pagava por um serviço de tv por assinatura ou não assistia em lugar nenhum. O sucesso também incentivou a concorrência entre provedores do serviço e, naturalmente, o preço dos direitos da Premier League e das principais ligas da Europa foi às alturas.

No Brasil, a disputa atual é muito diferente da revolução inglesa da década de 90. Primeiro, porque ela não é por direitos de exclusividade, e sim apenas por direitos de uma das plataformas de transmissão. Além disso, ela se limita a alguns clubes com audiência intermediária, e não para toda a competição. Com isso, uma pessoa não precisa mudar para o Esporte Interativo para assistir o Campeonato Brasileiro. Para uma dose semanal de jogos de clubes não determinados – mas em geral os de maior popularidade, existe a Globo. Para jogos específicos, o Premiere. A distribuição fica mais ou menos assim:

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A maior diferença, porém, é que a disputa é por canais e não por plataforma. E uma troca de canais nesse caso é um processo decisório rápido, fácil e simples, porque raramente vai necessitar de uma troca financeira. Basta usar o controle remoto. Você não precisa passar pela homérica procissão de cancelar o seu serviço de televisão por assinatura e trocar para a concorrente porque ela agora tem o Campeonato Brasileiro. E ainda que a Sky, dona de cerca de 1/4 do mercado de tv por assinatura do país, ainda não ofereça o Esporte Interativo, ela oferece o Sportv e o Premiere. Se você for assinante dela, talvez seja mais fácil e cômodo assinar o Premiere do que cancelar o serviço e trocar pela Net. Até porque talvez a tv a cabo não chegue no seu bairro. E é bem aí que reside a importância desse teste para o Campeonato Brasileiro.

Depois de alcançar o ápice no final de 2014, o número de assinantes de televisão fechada no Brasil vem caindo mês após mês. Talvez seja pelo reajuste depois de um crescimento exagerado de assinaturas em função da Copa do Mundo e suas eventuais promoções de preço, talvez pelo agravamento da crise financeira ou talvez porque a televisão a cabo esteja ficando obsoleta. A diminuição no número de assinantes de tv e o aumento no número de assinantes de banda larga, como ocorre no Brasil, é uma tendência bastante consolidada em mercados de mídia mais desenvolvidos. Seja lá qual for a razão, o gráfico abaixo ilustra essa queda e indica que o futuro para a plataforma não é dos mais promissores. Em 2012 a média mensal de crescimento foi de 2%, mas nos últimos 12 meses, ele diminuiu 0.35%  por mês. A recente retração aliada ao crescimento de conteúdo de mídia via streaming sugere que o cenário em 2019, quando começa os direitos de transmissão em televisão fechada do Esporte Interativo, possivelmente estará bem diferente.

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Mesmo que isso também possa significar que o mercado esteja apenas dando uma soluçada e retome seu crescimento tão logo o país ajuste a economia, existem dificuldades para o futebol dentro do próprio universo da televisão por assinatura, tradicionalmente dominado por crianças e por pessoas que não gostam de legendas. Foi só no ano passado, pela primeira vez na história, que o Sportv liderou a audiência da televisão fechada, muito por conta das expressivas audiências dos jogos das fases finais da Copa América, que, após a eliminação da seleção brasileira, foram transmitidas exclusivamente pelo canal, sem transmissão aberta.

Mas, em Abril desse ano, o Sportv foi apenas o décimo quinto canal mais assistido na tv por assinatura. Na sua frente, seis canais de tv aberta – inclusive a Cultura, quatro canais infantis, três canais de filmes dublados e mais a Globo News com a cobertura sobre o impeachment. Os outros canais esportivos ficaram ainda mais pra trás. O Fox Sports, segundo canal esportivo mais popular do país, teve menos audiência do que o Boomerang e a TV Brasil. A ESPN Brasil ficou atrás da Gazeta e do Discovery Home&Health. O Sportv2 teve menos audiência que o History Channel. O Sportv3 menos que o A&E. O Fox Sports2 e o Esporte Interativo, no seu começo de empreitada, perderam pro Telecine Touch. Tudo bem que Abril é só começo de temporada do futebol no país e ainda não tinha chego no final das principais ligas européias. Mas, poxa, Telecine Touch. Mais significativo ainda, os quatro principais canais infantis (Discovery Kids, Cartoon Network, Disney Channel e Gloob) tiveram juntos mais do que o dobro de audiência do que todos os canais esportivos somados. Eis o ranking 1:

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Fica evidente que o desafio do Esporte Interativo não será nada fácil. Afinal, tudo indica que a televisão a cabo está destinada a perder relevância para outras tecnologias em um futuro não tão distante, uma coisa que o próprio grupo Turner já deixou bem claro para o mercado americano. Além disso, a competição por  público com outros canais esportivos é acirrada, mesmo que este público não seja tão representativo assim. O Esporte Interativo entrará com copas de clubes da UEFA e com partidas Campeonato Brasileiro de clubes que talvez sequer estejam na Série A em 2019. A Fox Sports, que vem conquistando amplo espaço no segmento de mercado (quem sabe aí a principal razão da empreitada do grupo Turner no futebol), entra com algumas das principais ligas européias e copas de clubes da CONMBEBOL. A ESPN Brasil aposta suas fichas principalmente na Premier League. E o Sportv vem com um pouco de tudo e mais o apoio da Rede Globo. Tudo isso por um mercado que teve, em média, pouco mais de um ponto de audiência no horário nobre no ano passado.

Até hoje, o Campeonato Brasileiro não conseguiu deslanchar como produto de mídia em parte por não haver competição de verdade para a rede mais popular do país, mas em grande parte também por não conseguir provar que vale a pena como atrativo para puxar audiência. Sempre pareceu muito mais vantajoso o campeonato estar na Globo, ainda que ocupando uma grade secundária, do que estar em  qualquer outro canal – até porque neste caso, além de menos exposição, sem a promoção global ele talvez acabasse se tornando uma atração de segundo nível de qualquer jeito.

Para o Esporte Interativo, porém, a competição será material de primeira grandeza e fundamental no projeto de expansão do canal. E, para o Campeonato Brasileiro, será a primeira oportunidade de mostrar seu valor independente da Rede Globo na televisão por assinatura. Até agora, o canal do grupo Turner apresentou as promessas de revolução e inovação apenas para os clubes. Falta ainda mostrar qual será o benefício para a audiência, que, no final, vai ser quem vai pagar a conta.

Se, mesmo com todas as dificuldades, a empreitada do Esporte Interativo der certo e uma parte dos jogos do Campeonato Brasileiro conseguir de fato puxar audiência significativa e se tornar uma operação rentável para o canal ou para o grupo, o Campeonato Brasileiro ganhará uma força inédita em sua história como produto de mídia, que consequentemente levará à concorrência entre canais por esses direitos, que por sua vez levará a valores maiores pelos contratos e, com sorte, a um produto final melhor para o público. Eventualmente, poderá até migrar de um produto de disputa entre canais para se tornar um produto de disputa entre plataformas, que é onde o dinheiro está de verdade.2

Mas, se o cenário desfavorável que se apresenta para o Esporte Interativo não conseguir ser alterado, será uma pá-de-cal na crença que o futebol brasileiro é relevante para o mercado midiático. A empreitada falha confirmará o histórico de pouco valor do produto e condenará os clubes do país a mais um longo período de baixo poder de barganha nas negociações de transmissão.

No meio termo, que me parece o mais sensato, o Esporte Interativo contará com um produto razoável para consolidar seu espaço no não-muito-extenso nicho de mercado esportivo da televisão fechada e a Turner conseguirá fortalecer seu portfolio de canais para fazer frente ao recente crescimento da Fox, sua principal concorrente. Os direitos de televisão fechada do Campeonato Brasileiro não serão tão subvalorizados como antes, mas também não despertarão tanto interesse para gerar crescimento significativo em relação ao valor que o Esporte Interativo pagou. E, assim, tudo ficará mais ou menos do mesmo jeito que está agora, pelo menos até que o streaming esportivo assuma uma cara mais definida e se consolide como plataforma de distribuição de mídia no Brasil. Até lá, tudo continuará sem revolução e sem muita inovação. Daí por diante, vai depender do resultado desse teste.

Rodapé:

  1. Dados da Kantar/Ibope encontrados aqui. Leva em conta a audiência das 7h às 0h. Limitando a audiência ao horário nobre, os canais esportivos tendem a ter uma performance um pouco melhor, mas nada que afete o cenário como um todo.
  2. Levando-se em conta o cenário macroeconômico e estrutural brasileiro, essa possibilidade é bastante irrisória.

A Ilusão da Primeira Liga

PRIMEIRA LIGA

Há pouco mais de um mês atrás, Rodrigo Mattos, blogueiro do UOL e jornalista da Folha, escreveu um post comparando o público da Primeira Liga, que recém havia terminado, com o dos Estaduais. Nele, Mattos foi categórico: “(…) a Primeira Liga teve uma média de público que representa o triplo do verificado nos Estaduais dos times participantes. A maioria dos 21 jogos foi rentável ao contrário das competições locais.

No final de Fevereiro, PVC, um dos mais influentes jornalistas do futebol brasileiro, também enfatizou a mesma ideia em seu blog com um post intitulado “Primeira Liga massacra Estaduais em média de público”. A análise de PVC foi bastante prematura, uma vez que se deu ainda nos estágios iniciais da competição. Mattos, um pouco mais paciente, esperou um dia após a Final da Primeira Liga para postar sua conclusão. O problema, porém, é que os Estaduais ainda sequer haviam chegado às semifinais. Mesmo assim, apesar da base de dados incompleta, os dois enalteceram a Primeira Liga. Ao que parece, os dois queriam que a Primeira Liga fosse um sucesso.

Os dois posts de dois dos mais renomados jornalistas esportivos do país são evidência de pelo menos duas faces da imprensa esportiva do Brasil: (1) ela por vezes é enviesada, não se atentando a buscar a verdade em si e mais focada em utilizar os dados que apenas ilustram seu argumento pré-estabelecido, ignorando o cenário completo; e, com isso, (2) as análises produzidas tendem a ser superficiais e estabelecer verdades falhas. Como consequência, essas verdades incompletas geram clamores desconectados da realidade, que por sua vez geram projetos frágeis que, quando executados, acabam contribuindo pouco com o desenvolvimento do futebol brasileiro. E a Primeira Liga é um ótimo exemplo disso.

Em uma primeira análise, quando considerando os números finais dos Campeonatos Estaduais, a Primeira Liga realmente parece ter representado um avanço, ficando só atrás da Série A na média de público pagante:

PUBLICO MEDIO BRUTO

Porém, essa superioridade numérica é uma ilusão. Para que se possa entender se a Primeira Liga representa um avanço para os clubes participantes em relação aos Estaduais, é fundamental que esses clubes tenham seus números isolados. Como as médias são contabilizadas para público em casa, o número de pagantes de outros clubes pouco interessa. E, ao fazer isso, o estabelecido sucesso da Primeira Liga começa a ficar um pouco mais nebuloso. Para auxiliar na contextualização, além da média dos Estaduais apenas dos clubes participantes da Primeira Liga, adicionei também a média de público dos 04 principais clubes de SP no Paulista 2016 (T4 SP) e dos 04 principais clubes do RJ no Carioca 2016 (T4 RJ):

PUBLICO MEDIO ISOLADO

Agora, a ilusão da comparação das médias absolutas começa a ficar mais clara. A média de público da Primeira Liga só é maior quando comparada a todos os clubes disputando os Estaduais. Quando a comparação se limita apenas à média de público dos clubes que participam das duas competições, o que se percebe é que o massacre não é tão grande assim. E, ao isolar apenas as médias dos clubes mandantes tanto nos Estaduais quanto na Primeira Liga, o massacre efetivamente deixa de existir, uma vez que os estados em que a média da Primeira Liga é superior são justamente os que tiveram deturpações mais significativas na contagem 1. É bastante seguro afirmar, assim, que a verdade é justamente contrária à propagada por Mattos e PVC. Os Estaduais levaram em média mais torcedores aos estádios do que a Primeira Liga.

PUBLICO MEDIO POR ESTADO

Isolando por clube, esse fato fica ainda mais evidente. Os únicos que se beneficiaram foram os que possuem a base de dados deturpadas, além de Atlético-MG, com um acréscimo irrisório, e Criciúma:

PUBLICO MEDIO POR CLUBEAlém disso, um dos principais argumentos contra os Estaduais é o fato das competições serem deficitárias para os clubes. Clubes grandes não querem jogar o campeonato porque dizem que pagam para jogar. Mais uma vez, vale ressaltar, é necessário isolar a média do clube como mandante, porque é onde o clube arrecada o valor do ingresso. Se o jogo fora de casa tem público grande ou não, para o visitante pouco importa, já que ele não embolsa esse valor. É de se imaginar, seguindo essa retórica dos Estaduais deficitários, que a Primeira Liga, apesar do menor público, geraria mais receita para os clubes. Porém, a comparação entre as rendas médias também mostra que os clubes, em sua imensa maioria, arrecadaram menos do que as competições locais. Se os Estaduais dão prejuízo, a Primeira Liga dá ainda mais:

RENDA MEDIA POR CLUBE

Para colaborar com o argumento da força dos Estaduais, é possível observar alguns exemplos jogo-a-jogo. A partida com menor público da Primeira Liga foi Fluminense x Criciúma, com 1,406 pagantes, menos do que Fluminense x Boavista pelo Carioca, com 1,601 pagantes, e muito menos do que Brusque x Criciúma pelo Catarinense, que teve 2,719 pagantes. Coritiba x Avaí foi o menor público do Coritiba no ano, com 1,982 pagantes, muitas vezes inferior até a Coritiba x Cascavel pelo Paranaense, com 5,374 pagantes, e semelhante a Brusque x Avaí pelo Catarinense, com 1,808. Avaí x Grêmio teve público menor do que Avaí x Inter de Lages. Cruzeiro x Atlético-PR levou menos gente do que Cruzeiro x Uberlândia pelo Mineiro e Operário x Atlético-PR pelo Paranaense, além de ter metade do público de Cruzeiro x Tupi. Um quarto das partidas da Primeira Liga teve público menor do que Boavista x Volta Redonda pelo Carioca e do que Operário x Londrina pelo Paranaense. Mais da metade das partidas da Primeira Liga teve público inferior a Uberlândia x Guarani e só cinco jogos da Primeira Liga tiveram mais público do que Cruzeiro x URT, ambas pelo Mineiro. Ao todo, 23 partidas entre os cinco Estaduais disputados pelos clubes participantes da Primeira Liga tiveram renda superior à Final entre Fluminense x Atlético-PR. Se adicionar o Paulista na conta, o número sobe para 44 jogos.

O baixo público e renda da Primeira Liga em comparação com os Estaduais traz à tona algumas conclusões importantes para entender a estrutura do futebol brasileiro:

  • Ao contrário da retórica de boa parte dos dirigentes e da imprensa, os Campeonatos Estaduais não parecem ser um problema. Uma competição com clubes com marcas mais fortes do que os clubes menores de cada estado não possui força suficiente para atrair mais torcedores. O problema, assim, não é o formato da competição, tampouco os adversários.
  • O ponto de discussão é que tanto os Estaduais quanto a Primeira Liga são competições secundárias ao maior campeonato do país, o Campeonato Brasileiro, e dificilmente irão conseguir atrair um grande número de torcedores de qualquer jeito. Porém, enquanto os Estaduais oferecem adversários menos famosos, mas pelo menos oferecem partidas que não acontecerão novamente em outro campeonato – com exceção aos clássicos, a Primeira Liga oferece um subproduto com os mesmos times que disputam uma outra competição mais importante.
  • Além disso, os Estaduais permitem que os clubes mais famosos do país tenham mais chances de entregar aos seus torcedores justamente aquilo que os elevou à fama: vitórias e títulos. Enquanto na Primeira Liga os 12 clubes disputam um só troféu, nos Estaduais esses mesmos clubes disputam cinco diferentes, com significativas chances de conquista. Como a chance de título é um dos principais fatores que levam torcedores ao estádio, a escolha de mais torcedores pelos Estaduais é natural.2
  • As partidas com baixo público e renda nos Estaduais acontecem, na sua imensa maioria, quando os clubes menores são os mandantes. Se alguém deveria reclamar da baixa atratividade dos Estaduais são eles.

Além de provar que os Estaduais são mais positivos para os clubes do que a Primeira Liga, o importante aqui é também mostrar a necessidade de se fazer uma análise mais séria e aprofundada sobre o futebol brasileiro. Não se pode tratar a indústria de maneira superficial e pouco inteligente. Para colaborar com o futuro do futebol brasileiro, é preciso entender como ele funciona de verdade, independente se você goste ou não das Federações ou da CBF. A indústria do futebol não pode ser uma partida onde você escolhe um lado e torce pra que ele ganhe. A indústria do futebol no Brasil é gigantesca. Ela possui importância cultural, econômica e histórica como poucas outras no país. Para criar a Primeira Liga, foi gasto tempo, dinheiro e esforço em busca de uma solução para um problema que sequer existe.

Antes de querer propor melhorias para o futebol brasileiro, é preciso entender como ele funciona de verdade, sob o elevado risco de retrocessos que podem demorar muito para serem reparados. Isso vale para os dirigentes e, pelo jeito, também para os jornalistas. Do contrário, viveremos sempre de soluções ilusórias que, no fundo, mais atrapalham do que ajudam.

 

Rodapé:

1 O jogo Grêmio x Internacional do dia 06 de Março, partida com maior público da PL, foi válido tanto para a PL quanto para o Campeonato Gaúcho, o que altera a base de dados e tira valor da comparação, afinal o clássico já aconteceria de qualquer maneira, com PL ou sem, e seria igualmente atrativo. A segunda partida com maior público da PL, Atlético-PR x Criciúma, teve 33,270 pagantes, mas possivelmente atraiu mais gente por causa da inauguração do campo de grama sintética da Arena da Baixada do que pelo próprio jogo em si, aliado ao fato do Atlético-PR ter reduzido significativamente o preço do ingresso. O jogo Atlético-PR x Coritiba, válido pelo Campeonato Paranaense disputado no dia 20 de março, por exemplo, teve uma renda maior mesmo contando com 10 mil torcedores a menos. Por fim, no jogo Fluminense x Atlético-PR, no dia 27 de Janeiro no Estádio Raulino de Oliveira, a entrada foi um quilo de alimento (para efeitos ilustrativos, considerei o preço do ingresso como R$6.29, que é o preço de um quilo de feijão Camil no Extra).

2 Esse é um tema complexo e muito importante para entender a indústria do futebol. Prometo que farei uma análise mais aprofundada em breve.

A Lógica do Futebol e a Lógica do Leicester

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(you can find the English version of this article here)

A lógica do futebol é bastante simples: times com melhores jogadores tendem a ganhar mais jogos do que time com piores jogadores. A lógica do football business é complementar e tão simples quanto: times com mais dinheiro tendem a pagar jogadores melhor, então times com mais dinheiro tendem a ter melhores jogadores e portanto times com mais dinheiro tendem a ganhar mais partidas. Times mais ricos tendem a terminar o campeonato no topo da tabela, times mais pobre no fundo. Coisa simples.

Essa lógica pode fazer o futebol parecer um esporte bem simples até que você se dá conta que o termo ‘tende’ significa uma probabilidade e não uma certeza. Algumas vezes, muitas na verdade, o aleatório aparece e um time melhor pode perder para um time pior. Isso acontece com certa frequência em partidas eliminatórias – o sistema das Copas – onde times menores muitas vezes chegam à final. Em competições no formato de ligas, onde times vão disputando um número fixo de partidas ao longo da temporada, o aleatório tende a impactar todos os clubes igualmente e se contrabalancear. Dessa forma, times mais ricos tendem a obter melhores resultados. Se o time rico não vira campeão, um dos mais ricos certamente vai.

Essa lógica tem sido testada e confirmada por uma imensidade de estudos ao longo da última década. Isso fica bem claro ao analisar as finanças dos campeões da English Premier League nos últimos dez anos:

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Nessa temporada, porém, o establishment foi contestado. O Leicester City não está entre os times mais ricos da EPL. Na verdade, o Leicester City é um dos clubes mais pobres da EPL. Uma projeção do The Economist sugere que o gasto com salários do Leicester City nessa temporada, £64 milhões, foi superior apenas às folhas do Watford, Bournemouth e Norwich City. E, ainda assim, o clube ganhou a EPL de maneira implacável, 10 pontos acima do segundo colocado, Arsenal, 15 acima do Manchester City e 31 acima do Chelsea. Todos esses clubes tem uma folha salarial projetada mais do que três vezes maior do que a do Leicester.

A conquista do título é um acontecimento impressionante. Foi a primeira vez em 20 anos que um time fora das quatro maiores folhas salariais ganhou a EPL. A coisa mais próxima disso, e ainda assim bem longe, foi o Aston Villa chegando em quinto na temporada de 96/97 com a menor folha da liga e o Ipswich Town chegando em quinto em 2000/01 com a quinta menor folha. Mas como isso foi possível? A lógica do futebol foi testada e comprovada inúmeras vezes. Times mais ricos tem melhores jogadores e melhores jogadores ganham mais partidas. É lógico. Faz sentido. Mas o Leicester City ganhando a EPL não faz. O que diabos aconteceu?

Para entender esse fenômeno, precisamos analisa-lo através de uma combinação de perspectivas. A primeira, e mais óbvia, é entender o que levou o Leicester a alcançar esse elevado nível de performance sem precedentes. Mas esse fato por si só não pode explicar a perspectiva maior. Como o gráfico abaixo mostra, quando comparada com as últimas 05 temporadas, essa foi a que teve o menor número de pontos combinados entre os quatro clubes do topo da tabela:

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Mais importante, essa foi, de longe, a temporada com o menor número de pontos combinados entre Chelsea e Manchester City desde que o último foi comprado pelo Abu Dhabi United Group. O Leicester City ganhou mais, mas os outros times grandes perderam muito mais. Essa história, portanto, não é só um conto de fadas sobre como um time pobre conseguiu ganhar o campeonato, mas também uma tragédia sobre como os time grandes conseguiram perder.

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Por fim, é importante entender que o título do Leicester pode também ser o sinal de mudanças mais fundamentais na EPL. Pode existir um cenário novo que transformou, ou desenvolveu, a lógica do football business? Nesse caso, seria o título do Leicester um prenúncio do futuro do futebol inglês? Nesse caso, quais são as consequências para a indústria como um todo?

Bastante coisa para analisar. Vamos a elas:

1. Por Que o Leicester City Ganhou

A trajetória do Leicester é digna de Oscar. Não apenas o time é pobre, ele também quase foi rebaixado na temporada passada. Depois de chegar ao fundo da tabela em Dezembro de 2014 e conquistando apenas dois pontos em nove partidas entre Janeiro e o final de Março, alguma coisa aconteceu. Nas últimas oito rodadas da temporada, o Leicester ganhou sete partidas e empatou uma, não apenas se salvando do rebaixamento, mas conseguindo terminar em uma posição confortável seis pontos acima da zona da degola.

Esse nível de performance normalmente não é esperado de um time na última posição do campeonato que ganhou 18 de 30 partidas na temporada até então. É seguro dizer que o que quer que tenha levado o Leicester ao título esse ano começou ali. Afinal, considerando apenas as últimas oito rodadas da temporada 14/15 da EPL, o Leicester City foi o líder, quatro pontos acima do Manchester City:

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Certamente, alguma coisa significativa aconteceu. Um time ruim não clica de uma hora pra outra e se torna um esquadrão invencível. O Mahrez pode ter ganho o prêmio de melhor jogador dessa temporada, mas ele já estava no time naquela época. Vardy também. Ambos, inclusive, estavam no time que começou jogando na derrota do Leicester para o QPR em Novembro de 2014 que jogou o time para a última posição da tabela. Kanté ainda estava dando carrinhos em terras francesas. O que pode ter acontecido?

Em Março de 2014, a conta oficial do Aston Villa tuitou uma mensagem confirmando a liberação de dois jogadores formados na categoria de base do clube. Um era Nathan Delfouneso, 23 anos, atacante que prometia ser uma das grandes promessas do futebol inglês alguns anos antes e que eventualmente assinou contrato com o Blackpool. O outro era o ala de 24 anos Marc Albrighton, também uma antiga promessa que estava sofrendo para conseguir um lugar o time. Três dias depois ele assinou com o Leicester.

A primeira temporada de Albrighton pelo Leicester começou lembrando a última com o Aston Villa. Até a trigésima rodada, ele havia começado só duas partidas como titular. Da metade de Fevereiro até o final de Março, não ia nem pro banco. Isso num time que estava na lanterna. Mas aí ele foi chamado pro banco na partida contra o West Ham. Logo depois do intervalo, substituiu Mahrez. Albrighton jogou bem, o Leicester ganhou a partida e no jogo seguinte contra o West Brom ele começou jogando. Mahrez não.

Eventualmente, o Argelino voltou ao time titular. Mas Albrighton nunca saiu, ainda bem para o time. Foi depois do jogo contra o West Ham que o Leicester City engatou na série incrível de resultados que salvaram o clube do rebaixamento e no final resultou no título da EPL. E a única coisa que mudou no time daquele momento em diante foi o Albrighton. Abaixo, você encontra a média de Pontos Por Partida (PPP) do Leicester City com e sem o ala entre os titulares:

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A influência de Albrighton na performance do Leicester é evidente e impressionante. Especialmente se considerar que Vardy, Mahrez e Kanté, os jogadores normalmente considerados mais influentes no título, tiveram um PPP menor:

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A performance de Albrighton não é nada menos do que impressionante, ainda mais quando comparada com os jogadores mais famosos da liga. Dos Top 50 (T50) jogadores mais valorizados da EPL, apenas dois tiveram um PPP igual ou maior do que o ala: Nasri, com 2.3 PPP em quatro partidas como titular, e Wilshere, que ganhou a única partida que começou esse ano. Porém, muito diferente de Nasri e Wilshere, Albrighton jogou quase todos os jogos e entregou resultados repetidamente. E, no final, o mesmo pode ser dito sobre a maioria dos seus companheiros de time. Os principais jogadores do Leicester começaram quase todas as partidas dessa temporada da EPL:

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Isso oferece uma explicação simples, mas talvez chave, para entender o sucesso da equipe. Lá atrás, em 2015, depois que o Albrighton entrou, a equipe finalmente encaixou. A nova formação fez os jogadores bons jogarem melhor. E como o passado recente era de resultados pífios, a nova qualidade do time passou despercebida. Como na janela de transferências seguinte nenhum dos grandes times estava interessado nos melhores jogadores do Leicester, o time se manteve e continuou ganhando partidas. E como a maioria desses jogadores jogou a maioria das partidas da temporada, eles ganharam a liga. O Leicester City formou e manteve um grande time com grandes jogadores que jogaram quase todas as partidas da temporada.

Isso nos leva à próxima parte.

2. Por Que os Times Ricos Perderam

Mas e os times grandes? Os clubes extremamente ricos? Aqueles admirados pela riqueza absurda dos seus donos, estádios luxuosos e centro de treinamentos novinhos em folha? Por que eles não ganharam a liga? Afinal, é seguro dizer que se o Leicester City tem grandes jogadores, esses times tem jogadores ainda maiores. Eles são os que podem pagar pelos internacionalmente famosos e experientes melhores jogadores do mundo. Não é o contrário, certo?

Certo. Não é. Porém, é seguro dizer também que um time só se beneficia por ter grandes jogadores se esses jogadores de fato jogarem. Nasri e Wilshere foram só dois exemplos de jogadores famosos que não começaram jogando muitas partidas na EPL. Teve muito mais. Na verdade, do T50, que compreende basicamente jogadores do Manchester City, Chelsea, Arsenal, Manchester United, Liverpool e Tottenham, apenas oito começaram 34 partidas ou mais na EPL. Mais impressionante, 35 destes, 70%, não começaram em pelo menos nove partidas na temporada.

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O baixo número de jogadores caros começando partidas na EPL talvez ofereça uma boa indicação das razões por trás da distância do número de pontos do Leicester City em comparação com os clubes mais ricos. Porém, pode também indicar que os T50 são supervalorizados e que a precificação de atletas é altamente ineficiente, uma vez que esses jogadores podem não ter começado partidas por questões meramente técnicas, por exemplo. Apesar de ser sedutor pensar isso, é difícil imaginar que essa possibilidade se aplicaria a um número tão grande de jogadores internacionalmente famosos. O próximo ponto a ser considerado, portanto, é o número de partidas que o T50 perdeu por lesões:

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A tabela mostra que impressionantes dois-terços do T50 perdeu pelos menos duas partidas por lesão nessa temporada, e 40% perdeu pelo menos seis. Considerando que leva um tempo para um jogador retomar a condição física ideal depois de uma lesão, esse dado oferece ainda mais subsídios para entender por que os clubes grandes foram tão mal esse ano. O interessante aqui, porém, é que apesar de não começar tantas partidas pela EPL, o T50 começou muitas partidas ao longo do ano. Na verdade, consideravelmente mais do que os jogadores do Leicester:

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Porém, como é possível perceber acima e verificar abaixo, as partidas da EPL foram apenas uma parte do foco da grande maioria do T50, que estavam ocupados principalmente com os campeonatos da UEFA. Os jogadores mais valiosos da Inglaterra começaram muitas partidas esse ano. Ainda bem para o Leicester City que uma boa parte dessas não foi pela EPL:

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Talvez porque esses jogadores tinham coisas mais importantes com o que se preocupar?

3. A Transformação do Futebol Inglês

Junto com o preço do aluguel e a necessidade de pagar por sacolinhas do supermercado, uma das maiores mudanças que eu percebi da primeira vez que eu vim morar na Inglaterra dez anos atrás foi o crescimento visível da importância da UEFA Champions League. Lá em 2006, os ingressos para as partidas eram relativamente fáceis de se encontrar e os jogos eram transmitidos ao vivo em TV aberta. Agora, a UCL é coisa premium. Ingressos para Arsenal x Barcelona estavam sendo vendidos a partir de R$3.000,00. Jogos ao vivo da UCL são o principal atrativo da BT, concorrente da Sky, para vender pacotes de assinatura de TV fechada. Que diferença em uma década. Agora, a UCL importa.

A crescente importância da competição parece ter impactado forte na EPL. Clubes que outrora teriam dado prioridade à liga agora parecem estar olhando para ela por uma perspectiva diferente. Talvez isso seja um sinal da crescente popularidade global dos clubes ingleses e das competições da UEFA, então eles precisam jogar contra os melhores times do mundo para agradar seus torcedores internacionais. Talvez seja uma consequência do fato de que a maioria dos donos dos clubes da EPL sejam estrangeiros mais interessados no palco global do que na tradição local. Ou talvez os principais jogadores apenas prefiram jogar em lugares mais ensolarados. Talvez um pouco de tudo. Qualquer que seja a razão, a influência desse crescimento de importância na campanha do Leicester não pode ser subestimada. Se os melhores jogadores não jogam o campeonato local, os reservas dificilmente vão conseguir oferecer o mesmo nível de performance, o que portanto equilibra o nível competitivo com os times mais pobres e aumenta as chances de resultados menos previsíveis.

Outro fator importante para considerar é o crescimento absurdo das receitas da EPL. Clubes da liga, todos eles, estão mais ricos do que nunca, e as outras ligas ao redor do mundo não estão conseguindo acompanhar. Nessa condição, o buraco competitivo dentro da competição em si tende a ser reduzido, uma vez que os clubes mais pobres conseguem recrutar melhores jogadores estrangeiros. No passado recente, clubes como Stoke, West Ham, Swanse e Crystal Palace dificilmente conseguiriam competir com clubes secundários da Europa por seus melhores jogadores. Mas, nessa temporada, eles trouxeram Imbula, Shaqiri, Payet, Ayew e Cabaye, entre outros. Ainda que não estejam normalmente listados como os melhores jogadores do mundo, todos tem potencial para causar danos em uma determinada partida, eventualmente reduzindo o número de pontos total acumulado pelos clubes ricos no final da temporada.

Adicionalmente, o gap entre os três clubes mais ricos diminuiu muito nos últimos dois anos, como você pode ver abaixo:

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Isso é de fato uma consequência de maiores receitas para todos os clubes, mas também de novas regras que restringem os gastos exorbitantes, o que impede os clubes ricos de gastarem muito mais do que os outros. Com isso, o nível competitivo também aumenta, portanto clubes tendem a danificar outros mais quando jogando entre si, reduzindo o número de pontos total acumulado ao longo do ano. No futebol, ajuda muito ser muito mais rico do que os outros. Quando você é só um pouco mais rico, não ajuda muito.

Então, resumindo, aqui está a explicação: na segunda metade da temporada 14/15 da EPL, o Leicester City formou uma grande equipe que salvou o time do rebaixamento e conseguiu se manter para a temporada seguinte porque nenhum dos clubes ricos estava interessado em jogadores que ficaram mais da metade da temporada na lanterna da tabela. Como o Leicester focou e jogou principalmente na EPL, jogadores estiveram menos sujeitos à fatiga e tiveram sorte de escapar de lesões. Os clubes ricos não tiveram tanta sorte ou interesse. Com outras competições importantes para jogar, seus principais jogadores estiveram mais sujeitos a lesões e jogaram menos partidas na liga. A queda no nível de performance dos ricos encontrou um crescente nível de performance dos pobres por causa das condições financeiras mais fortes quando comparadas a outras ligas europeias. Clubes ricos perderam mais pontos e o Leicester aproveitou esse novo cenário para garantir o título.

A conquista do clube é impressionante, histórica e talvez possa significar um novo futuro para o futebol inglês. Se não para o Leicester City em si, que vai enfrentar uma competição difícil na janela de transferências para segurar seus principais jogadores e vai ter que jogar a liga com o seu próprio calendário cheio com partidas pela Europa, certamente para a EPL como um todo, que pode ver outros feitos semelhantes se tornarem mais frequentes em um futuro próximo.

A próxima temporada da EPL promete. Chelsea e Liverpool, fora de qualquer competição Europeia, vão focar somente em ganhar a liga sob mais ou menos as mesmas condições do Leicester City esse ano. Considerando todos os fatores acima, eles já tem uma vantagem enorme para conquistar o próximo título. Imagina se um deles contratar o Albrighton.

 

Rodapé:

1. Os dados para esse artigo foram encontrados no Transfermarkt e no The Economist.

The Logic of Football and The Logic of Leicester

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The logic of football is very simple: teams that have better players tend to win more matches than teams that have worst players. The logic of the football business is complementary and just as simple: teams that are richer tend to pay players better, so teams that have more money  tend to have better players, therefore teams that have more money tend to win more matches. Richer teams tend to end up at the top of the table, poorer teams at the bottom. Very easy stuff.

This logic can make football look like a very simple sport, until you realize that the term tend means a probability, and not a guarantee. Sometimes, a lot of times actually, randomness play a part in a match and a better team may lose to a worst team. This happens frequently in short knock-out competitions, where poorer teams often reach the finals and win tournaments. In a league competition, where clubs play several matches across the season, randomness tend to impact all clubs equally and even itself out, and so richer teams tend to achieve better results. If the richest team doesn’t become the champion, those among the richest probably will.

The logic has been tested and confirmed by several different studies over the past decade. A quick look into the finances of the champions of the English Premier League over the past ten years illustrates it very clearly:

Champions X Wage Rank

However, this season the establishment was challenged. Leicester City is not among the richest teams of the EPL. In fact, Leicester City is one of the poorest clubs in the EPL. A projection by The Economist suggests that Leicester City’s wage expenditure this season, £64 million, was only higher than those of Watford, Bournemouth and Norwich City. And, yet, the club won the EPL emphatically, with a 10 point lead over the second placed Arsenal, 15 over Manchester City and 31 over Chelsea. All these clubs had a projected wage budget over three times higher than Leicester’s.

The achievement is remarkable. It is the first time in 20 years that a team outside the top four payrolls has ever won the EPL. The closest to this, and still very far from it, was Aston Villa reaching the 5th place in 96/97 with the lowest salary budget of the entire league and Ipswich Town, also 5th place in the 2000/01 season but with the 5th lowest payroll. So how was this possible? The logic of the football business has been tested and proved over and over. Richer teams have better players and better players win more matches. It is logical. It makes sense. But Leicester City winning the EPL doesn’t. What the hell is going on?

In order to understand this phenomenon, we need to look into it with a combination of insights from different perspectives. The first, and more obvious, is understanding what drove the unprecedented  high level of performance from Leicester City. However, this fact alone cannot explain the bigger picture. As the graph below shows, when comparing the past 05 seasons, this had the lowest combined points from the top four clubs of the table.

Total points Top 4 clubs

More importantly, this was by far the season with the lowest combined points by Chelsea and Manchester City ever since the latter was acquired by the Abu Dhabi United Group. Leicester City won more, but the big clubs lost more. So this is not only a fairy tale about how a poorer team managed to win the league, but a tragedy of how the richer clubs managed to lose it.

Total points Chelsea + City

Finally, it is important to understand if Leicester City’s title can also be a sign of fundamental structural changes in EPL’s landscape. Is there a new scenario that have transformed, or developed, the logic of the football business? If so, is Leicester City’s title just a harbinger of the new future of English football? In this case, what are the implications for the industry?

This is a lot to cover. Let’s get to it.

1. Why Leicester City Won

 

Leicester’s trajectory is Oscar-winning material. Not only they were on the poor side of the table, they were almost relegated in the season before. After hitting bottom of the league in December 2014 and recording only two points in nine matches from January to late March, something snapped. In the last eight rounds of the season, Leicester won seven matches and drew one, not only saving itself from relegation, but finishing in a rather comfortable position six points above the dropping zone.

This level of performance is not often expected from a team at the bottom of the table that had lost 18 of the 30 matches played in the season. It’s safe to say that whatever led Leicester to the EPL title this year, it started at that time. After all, considering only the last eight rounds of the 2014/15 EPL season, Leicester City was the leader, four points ahead of Manchester City.

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Surely something significant occurred. A bad team doesn’t just click and turn into a nearly invincible squad overnight. Mahrez may have been awarded the best player of this season, but he was already there by then. Vardy too. In fact, both were in the starting line-up when Leicester lost to QPR in the match that took the team to the bottom of the league back in November 2014. Kanté was still tackling people around France. What happened?

On 20 March 2014, Aston Villa’s official account twitted a message confirming the release of two academy-graduate players. One was the 23 years old Nathan Delfouneso, a former highly rated wonderkid forward who eventually signed with Blackpool. The other was the 24 years old winger Marc Albrighton, also a former promising youngster who was struggling to find a place at Villa’s squad. Three days later, he signed with Leicester City.

Albrighton’s first season with Leicester started resembling just like his last with Aston Villa. Up until the 30th round, he had started only two matches. From mid-February to  the end of March, he was not even selected for the bench. And this was at a team that was at the bottom of the league. But then he was listed as a substitute on a match against West Ham. He was brought on just after half-time substituting Mahrez. Albrighton played well, Leicester won and, in the following match against West Brom, he was listed in the starting line-up. Mahrez wasn’t.

Eventually, the Algerian climbed back to the starting line-up. But Albrighton never left, and rightly so. It was after the match against West Ham that Leicester City  started the incredible run that saved them from relegation and later resulted in the EPL title. And the one single change in the squad at that moment was Albrighton. Below is the average of Points Per Match (PPM) of Leicester City with and without the winger in the starting 11:

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Albrighton’s influence on Leicester’s performance is clear and impressive. Especially when considering that Vardy, Mahrez and Kanté, the ones often regarded as the most influential players on the team’s victorious campaign, all had lower PPM ratios:

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Albrighton’s performance when starting matches is nothing short of amazing, even more so when comparing to the most renown players of the league. Of the Top 50 (T50market valued players of the EPL, only two had similar or higher PPM ratio than the Leicester’s winger: Nasri, with 2.3 PPM in four matches started, and Wilshere, who won the only match he started this season. However, very much different from Nasri and Wilshere, Albrighton played almost every match and delivered results repeatedly. And, in the end, the same can be said about most of his teammates. Leicester’s main players started almost every match of the EPL season:

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This provides a simple but perhaps key explanation for the team’s success. Back in 2015, after Albrighton came in, the team finally clicked. The new starting line-up made good players better. And because of the recent past of poor performance, the new found quality of the squad went unnoticed. When the following transfer window opened, none of the rich clubs were interested in any of Leicester’s main players, so the team remained the same and just kept on winning. And as the majority of these players played almost every match of the season, they won the league. Leicester City formed and maintained a great team with great players that played almost every match of the league.

This takes us to the next part.

2. Why the Rich Teams Lost

 

So what about the top English clubs? The very rich ones? Those praised by their incredibly wealthy owners, luxury stadiums and state-of-the-art academies? Why didn’t they win the league? After all, it’s safe to say that if Leicester City have great players, they have even greater ones. They are the ones that can afford the high-profiled internationally experienced top players of the world. It’s not the other way around, is it?

No, it is not the way around. However, it’s very safe to say that a team only benefits from having top players if these players actually play. Nasri and Wilshere were just two of the high-profiled players that didn’t start a lot of matches in the EPL. There were many others. In fact, of the T50, which comprises mostly players from Manchester City, Chelsea, Arsenal, Manchester United, Liverpool and Tottenham, only eight started 34 matches or more in the EPL. More astonishingly, 35 of them, 70%, didn’t start in at least nine matches of the season.

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The low number of the most expensive players starting matches in the EPL may provide a good indication for reasons of the distance of points between Leicester City and the richest clubs in the league. However, it could also indicate that the T50 are overrated and that the price system is highly inefficient, as these players may have been dropped out of squad for poor technical conditions, for example. Although it is tempting to regard this as a reason for a manager leaving a few players out of the squad, it is hard to imagine it would apply to such a vast number of highly-rated international players. The next factor to consider, then, is the number of matches that the T50 missed due to injuries:

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The figure shows that impressive two-thirds of the T50 missed at least two matches of the season due to injuries, and 40% missed at least six. Considering that there is often a delay in reaching the ideal physical condition after sustaining an injury, it provides further insights to understand why the top clubs underperformed. The interesting thing here, though, is that despite not starting a lot of matches for the EPL, the T50 did start a lot of matches throughout the year. In fact, considerably more than Leicester’s players:

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However, as it possible to conclude from the above and to verify below, EPL matches were only part of the focus for the vast majority of the T50, who were occupied especially with the Champions and Europa Leagues . The most valued players of England started a lot of matches this year.  Fortunately for Leicester City, a good number of these were not for the local league.

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Perhaps because they were told they had more important things to worry about?

3. The Changing Landscape of English Football

 

Together with the price of rent and the need to pay for shopping bags, one of the key differences from the first time I moved to England ten years ago to when I moved again last year is the visible growing importance of the Uefa Champions League. Back in 2006, no one really seemed to care that much. It was easy getting tickets for matches and they were all broadcasted live on free-to-air television. Now, UCL is premium material. Tickets for Arsenal vs Barcelona in February were starting at more than £600. Access to UCL’s live matches is the core product of BT’s sport package. What a difference a decade made. Now, the UCL matters.

The growing importance of the competition seems to have impacted hard on the EPL. Clubs that at other times would have prioritised the league now seem to be looking into it through a different perspective. Maybe this is a sign of the growing global popularity of English clubs and the UEFA competitions, so they need to play their teams against the world’s strongest squads to please their international fans. Maybe it is a consequence of the fact that the majority of owners of EPL clubs are foreigners more interested on the global stage than on the local tradition. Or maybe the top players just prefer playing in sunnier places. Perhaps a combination of them all. Whatever the reason, the influence of this growth of importance on Leicester’s successful campaign cannot be underestimated. If the best players don’t play the local league, substitutes will rarely be able to provide  the same level of performance, which then levels competition with the poorest clubs and increases the chance of less predictable results.

Another important factor to consider is the recent massive growth of EPL revenues. EPL clubs, all of them, are richer than ever, and other leagues around the globe are not keeping up with it. Under this condition, the competitive gap within the competition itself tends to be reduced, as the poorer clubs are able to recruit better players overseas. In the recent past, clubs such as Stoke, West Ham, Swansea and Crystal Palace would hardly be able to compete with the secondary clubs of Europe for some of their top players. But this season, they brought Imbula, Shaqiri, Payet, Ayew and Cabaye, among others. Although not normally listed as the best players of the planet, all have potential to cause damage in a given match, eventually reducing the total points of the richer clubs in the end of the season.

Adding to this, the gap within the top three richest clubs also got a lot smaller in the past two years, as you can see below:

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This is indeed a consequence of higher revenues for all clubs, but also of controlled expenditure regulations, which prevents richer teams from outspending others too much. With these in place, the competitive level also increases, so top clubs tend to damage each other more when playing against themselves, reducing the overall total points accumulated in the season. In football, it helps to be a lot richer than others. When you are just a little bit richer, not so much.

So, summarising all, here is the explanation: in the second half of the 2014/2015 EPL, Leicester City formed a great team that saved the club from relegation and was maintained for the following season because none of the richer clubs were attracted by players who were in the bottom of the league for over half of the season. As Leicester focused and played mainly on the EPL, players were less subject to fatigue and fortunate enough to avoid injuries. Richer clubs were not so lucky or interested. With other important competitions to play, their main players were subjected to more injuries and made less appearances in the league. A drop in the level of performance from the rich met an increased level of performance from the poor due to stronger financial conditions when compared to the other European markets. Richer clubs lost more points and Leicester City took advantage of the scenario to clinch the title.

The club’s achievement is remarkable and may well be the start of a new era in English football. If not for Leicester City, who will face tough competition in the transfer window to keep its main players and will have to play the league amid its own busy schedule, certainly for the EPL as a whole, which could see other feats such as this in the foreseeable future.

Next season is promising. Chelsea and Liverpool, out of any European competition, will focus solely on winning the league under most of the same conditions that Leicester City enjoyed this year. Considering all the factors above, they already have a enormous advantage for winning the next EPL trophy. Just imagine if one of them signs Albrighton.

 

Footnotes:

1) The data for this article was found on Transfermarket and The Economist.